segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A REABILITAÇÃO É POSSÍVEL?

Texto extraído na íntegra da revista Despertai
08/05/2001

“Ninguém pode obrigar outro ser humano a se reabilitar. A mudança tem de vir de dentro da pessoa e ela precisa querer mudar.” — VIVIEN STERN, A SIN AGAINST THE FUTURE—IMPRISONMENT IN THE WORLD (PECADO CONTRA O FUTURO: PRISÕES NO MUNDO).

UM DOS grandes segredos para reabilitar os presos tem que ver com a educação, a mudança de valores e do modo de encarar as coisas. Sem dúvida, há pessoas sinceras que se esforçam para educar e ajudar os detentos. Muitos presidiários de fato apreciam o trabalho excelente e altruísta dessas pessoas.

Alguns argumentam que o sistema penitenciário como um todo está além de reforma e que é quase impossível os presos melhorarem num ambiente desses. É verdade que simplesmente prender alguém não vai fazê-lo mudar seus valores. Mas a instrução bíblica já ajudou muitos a mudar de vida. Isso ilustra que, em base individual, a reabilitação é possível.

Atualmente, com a ajuda da Bíblia, alguns detentos fazem mudanças que resultam em maneira de pensar e conduta corretas. De que modo isso é feito? Eles acatam a recomendação bíblica: “Cessai de ser modelados segundo este sistema de coisas, mas sede transformados por reformardes a vossa mente, a fim de provardes a vós mesmos a boa, e aceitável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2) Como se consegue isso?

O
papel da Bíblia

Muitas pessoas acham que a religião pode ter um papel importante em ajudar os presos a se arrepender de suas ações anteriores. Naturalmente, um problema básico com esse raciocínio é que qualquer mudança de personalidade que ocorra atrás das grades pode muito bem desaparecer depois que o preso é solto. Um detento explicou isso da seguinte maneira: “Neste lugar, muitas pessoas aceitam Cristo, mas quando saem, deixam Cristo para trás.”

A experiência tem demonstrado que mudanças genuínas têm de ocorrer no íntimo — na mente e no coração do criminoso — e que a base para elas deve ser o arrependimento sincero pelas transgressões passadas. Um programa de educação bíblica pode ajudar a pessoa a aprender como Deus encara a maldade e por que razão ela é errada. Isso pode lhe dar fortes motivos para querer abandonar esse proceder.

As Testemunhas de Jeová estão empenhadas num programa educacional bíblico em várias prisões ao redor do mundo e têm tido ótimos resultados. (Veja a página 10.) “Fomos ajudados a descobrir o que a Bíblia diz sobre o objetivo da vida e as bênçãos que o futuro trará para a humanidade”, comentou um prisioneiro, e acrescentou: “É uma educação notável!” Outro detento disse: “Agora, tomamos decisões baseadas no conselho de Deus. . . . Vemos as mudanças em nós mesmos. Sabemos quais são as coisas mais importantes da vida.”

É claro que não são apenas as prisões que têm de passar por mudanças. A verdadeira solução para a crise do sistema penitenciário é eliminar as condições que tornam as prisões necessárias. Uma das maravilhosas verdades bíblicas que tocou o coração de muitos detentos é a promessa de Deus: “Os próprios malfeitores serão decepados . . . Os próprios justos possuirão a terra e residirão sobre ela para todo o sempre.” — Salmo 37:9, 29.

Quando isso acontecer, as normas superiores de Deus serão impostas por um governo incorruptível, amoroso e ao mesmo tempo firme, o Reino celestial de Deus sob Cristo — o governo pelo qual os cristãos foram ensinados a orar. (Mateus 6:10) Nesse novo mundo, todos os habitantes serão reabilitados ao aprender as leis superiores de Deus. Daí, como nunca antes, as seguintes palavras serão verdade: “A terra há de encher-se do conhecimento de Jeová assim como as águas cobrem o próprio mar.” (Isaías 11:9) Com que resultado? Todos os habitantes do novo mundo cumprirão as leis e “deveras se deleitarão na abundância de paz”. — Salmo 37:11.

[Quadro/Fotos
na página 10]

Levam
esperança aos presos

Há mais de 20 anos, ministros voluntários das Testemunhas de Jeová realizam um programa bem-sucedido de educação bíblica na penitenciária federal de Atlanta, na Geórgia, EUA. Durante esse tempo, mais de 40 detentos foram ajudados a se tornar ministros batizados das Testemunhas de Jeová e mais de 90 outros presidiários se beneficiaram de estudos bíblicos regulares.

Despertai!
entrevistou recentemente vários instrutores da Bíblia que trabalham altruistamente naquela prisão.

Por que o ensino da Bíblia é tão eficaz em motivar alguns presos a mudar de vida?

David: Muitos prisioneiros nunca receberam amor, nem na infância. Assim, quando ficam sabendo que Deus os ama, quando abrem o coração para ele em oração e ele responde às suas orações, Deus se torna real para eles. Seu coração se sente motivado a amá-lo também.

Ray: Um dos detentos para quem dei estudo havia sofrido abusos na infância. Quando lhe perguntei o que o atraía a Jeová, ele respondeu que quando você aprende a verdade da Bíblia descobre que Jeová realmente o entende. Isso o fez querer aprender mais sobre a personalidade desse Deus amoroso.

Alguns dizem que os prisioneiros se envolvem numa religião com segundas intenções: para reduzir a pena ou passar o tempo. O que a experiência lhes mostrou?

Fred: Quando os detentos vêm aos nossos estudos, não apelamos para o sentimentalismo. Simplesmente estudamos a Bíblia com eles. Logo, entendem que vamos ensinar-lhes sobre a Bíblia e é só. Alguns se chegaram a mim e pediram ajuda com seu processo. Eu não trato desse assunto com eles. De modo que os que vêm ao grupo de estudo e continuam nele um bom tempo realmente querem aprender o que a Bíblia diz.

Nick: Uma coisa que noto são as mudanças que alguns detentos fazem quando ainda estão na prisão. Alguns se tornam ministros batizados e sofrem muito às mãos de outros detentos. Isso é muito difícil para eles. Se a Bíblia não tocasse o coração deles, não conseguiriam continuar fiéis nessas circunstâncias.

Israel: Em geral, são pessoas com profundo desejo de aprender sobre Jeová e expressam isso de um modo muito especial. Dá para ver que é de coração.

Joe: Os que se tornam cristãos verdadeiros chegaram a entender a razão de as coisas terem dado errado na sua vida. Entendem também que podem mudar e isso lhes dá esperança. Então, aguardam sinceramente o cumprimento das promessas de Deus para o futuro.

Por que o sistema penal sozinho não consegue mudar os criminosos?

Joe: O objetivo do sistema penal não é reabilitar, mas manter os criminosos longe da sociedade. Essa é a raiz do problema: a maneira de o sistema penitenciário encarar esses homens.

Henry: O sistema penal não consegue mudar o coração dos criminosos. A maioria deles vai repetir os crimes quando sair da prisão.

[Foto
nas páginas 8, 9]

Muitos detentos foram ajudados a aprender a verdade da Bíblia

Preconceito atrapalha ressocialização de ex-detentos




Um dos grandes desafios é conseguir espaço no mercado de trabalho; baixa escolarização e medo do empresariado dificultam a inserção

Paula Costa Bonini Reportagem Local

Londrina - A dificuldade de ressocialização é um problema enfrentado por todo ex-detento. Independentemente do crime cometido, ao ter a liberdade garantida, o egresso esbarra no preconceito de uma sociedade que não está preparada para recebê-lo. Recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo revela que quem já cumpriu pena atrás das grades desperta repulsa ou ódio em 5% dos brasileiros, antipatia em 16% e indiferença em 56%. O estudo mostrou ainda que 21% das pessoas não querem encontrar ou conviver com um ex-presidiário.

Um dos grandes desafios encontrados é conseguir um espaço no mercado de trabalho. A maioria dos empresários tem receio de contratar um ex-detento. Poucos oferecem uma oportunidade. O empresário Rossine Pacheco Andrade, da Incorpast, empresa que fabrica e comercializa pastas, faz parte dessa minoria. Atualmente, ele conta com uma equipe de 20 funcionários, dos quais dois são ex-detentos.

''Acho importante oferecer uma oportunidade para evitar que eles voltem ao mundo do crime'', afirmou Andrade, que já chegou a ter cinco ex-presos trabalhando em sua empresa. ''Teve um que começou comigo e após um tempo saiu porque conseguiu um emprego melhor. Fiquei feliz. Realmente torço por eles'', falou.

Rossine garante que em nenhum momento sentiu medo de contratar um ex-presidiário e que não procura saber do passado deles. A empresa também atua em uma das unidades da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) II, o antigo Centro de Denteção e Ressocialização (CDR). ''Há presos que ajudam a confeccionar o material em oficinas desenvolvidas dentro do presídio. Tenho um instrutor que orienta esse trabalho'', explicou.

Segundo o Departamento Penitenciário do Paraná (Depen), atualmente existem 1.787 presos em Londrina, distribuídos nas duas unidades da PEL e na Casa de Custódia. Deste total, 329 trabalham. Três empresas atuam na PEL II. Nas outras instituições, os presos ajudam na lavanderia, faxina, biblioteca e outras tarefas.

Para o diretor-geral em exercício da PEL II, Luciano Pereira dos Santos, o trabalho deixa o detento mais tranquilo, o que ajuda a evitar tumultos e até rebeliões. ''Todos querem trabalhar para se sentirem úteis e para o tempo passar mais rápido. Três dias de trabalho é um a menos de pena'', salientou. Segundo ele, os presos recebem três quartos do salário mínimo por mês.

''A família do detento pode retirar até 80% do valor. O restante deve ficar na conta para o preso utilizar quando estiver em liberdade'', pontuou Santos, ressaltando que os presos são selecionados para o trabalho de acordo com o bom comportamento e o tempo de permanência.

Segundo a diretora do Patronato Penitenciário de Londrina, Cintia Helena dos Santos, a maioria dos presos consegue a liberdade antes de concluir a pena por apresentar bom comportamento. ''Eles são liberados para o regime aberto, mas até o término da pena precisam se apresentar no Patronato todos os meses. Nossa função é acompanhar a ressocialização e tentar incluí-los na sociedade''.

Conseguir um emprego, segundo Cintia, é realmente um dos maiores desafios. ''Eles ficam 'marcados'. Além do receio do empresariado, a baixa escolarização prejudica o ex-preso. Cursos de capacitação deveriam ser realizados dentro dos presídios, mas o Estado não consegue suprir essa necessidade'', considerou. ''E o empresário que contrata o antigo presidiário deveria receber benefícios fiscais'', acrescentou.

De acordo com a Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania, uma parceria com a Federação das Indústrias do Estado (Fiep) foi firmada na semana passada com o objetivo de promover cursos de capacitação para detentos. ''Serão desenvolvidas ações que visam a formação e a reinserção social da população carcerária do Paraná'', explicou a secretária Maria Tereza Uille Gomes.



'Estou reconquistando a minha vida'

Londrina - Claudiomar da Silva, de 39 anos, passou oito anos preso tráfico de drogas. Há cerca de um mês está em liberdade e trabalha como auxiliar de produção na Incorpast, firma para a qual trabalhou enquanto estava no presídio.

''Essa vaga foi uma grande oportunidade. Procurei emprego em outros lugares, mas quando sabem que sou um ex-detento arrumam uma desculpa para não me contratar. As pessoas sentem medo'', lamenta Silva, que tem esposa e dois filhos. ''Estou reconquistando a minha família e a minha vida aos poucos'', diz.

A situação de Ricardo Wagner Ferreira do Vale, 28, é semelhante. Após cumprir pena em regime fechado por sete anos, ele conquistou a liberdade há um mês e também conseguiu emprego na empresa de fabricação de pastas. ''Agradeço muito por ter conseguido um emprego, pois sei o quanto é difícil. Tive muita sorte. Agora só quero saber de trabalhar e cuidar da minha família'', finalizou Vale, que tem dois filhos.(P.C.B.)

Ex-detento peregrina por trabalho e reconhecimento na sociedade

São Paulo - Sobreviver da boa vontade alheia é situação conhecida para Marilton R., ex-presidiário de 32 anos. Ele percorre em média 40 ônibus por dia na capital paulista pedindo moedas "de qualquer valor que seja" aos passageiros. O horário de pico é o mais lucrativo. O motivo da peregrinação é a mancha de cinco anos em sua ficha criminal, o que dificulta, quase inviabiliza, a reconstrução de sua vida a partir de um novo emprego. Ele saiu de São Domingos do Norte, no Espírito Santo, com o pai e dois irmãos, aos 12 anos, quando parou de estudar. Já são 20 anos em São Paulo.
"Tem gente que dá dinheiro, tem gente que prega para eu aceitar Deus e tem os que me ignoram", relatou. Em suas abordagens, Marilton tenta explicar os motivos que o levam a pedir ajuda. Com esposa e um filho de 2 anos reside em uma casa de fundos alugada. A renda da família chega a R$ 700, do emprego de recepcionista de sua esposa e de "bicos" oferecidos por amigos.
Sua última experiência profissional foi como mecânico de automóveis em uma oficina da zona leste da cidade. Emprego formal, agora, não é perspectiva. "Já distribuí currículos em vários locais. Mas as respostas, são poucas, pouquíssimas". conta. Apesar do pouco estudo, Marilton fala bem, o que facilita suas abordagens. Certa vez fez entrevista de trabalho em uma prestadora de serviços de limpeza.
Passou um mês e nada. "Primeiro, pensei que tinha dado o número de telefone errado. Mas com o passar dos dias fui entendendo que essa coisa de ficha criminal pesa demais", lamentou. Preso aos 25 anos por assalto a um supermercado, Marilton não participava de nenhum programa educacional e de formação. No presídio fazia trabalho pesado. "Fui condicionado a trabalhar, não a estudar", pontuou.
Questionado sobre seus futuros passos, foi incisivo: "Já cumpri minha pena honestamente, já saí da prisão, já me redimi". Está quites com a lei. "Mas com a sociedade, não", lamenta.

Discriminação inconfessável

Marilton faz parte de um conjunto de pessoas que sofrem uma “discriminação descarada”, segundo Marcelo Segal, juiz do trabalho da 26ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro. “Ninguém vai deixar explícito que age por discriminação. Então, lógico que isso é mascarado com o argumento de que a pessoa não se enquadra no perfil desejável e não tem as qualidades necessárias”, observa. Mesmo com a participação em programas de capacitação, o caminho a trilhar exige portas abertas e uma boa oportunidade.
Para o juiz, uma vez que exigir antecedentes criminais não consta da lei, fazê-lo torna-se um equívoco. “As pessoas acham que devem dar emprego para a pessoa que nunca foi presa como se ela fosse mais importante ou não estivesse passível de ir presa. É uma questão cultural”, disse. Os registros de antecedentes são públicos. No entanto, utilizar isso como forma de negar acesso ao emprego seria ilegal.
Uma alternativa apresentada por especialistas e entidades é não haver registro da pena na ficha criminal - a não ser nos casos de reincidência - e a informação seria visível somente às autoridades e juízes. “Antigamente, você podia tirar uma certidão para saber se o trabalhador tinha ação na justiça. Muitas empresas realizavam esta averiguação e, se houvesse algo o trabalhador era descartado”, lembrou. Hoje, é proibido o acesso aos dados somente pelo nome do trabalhador.
Segal defende que haja leis que atraiam os empresários a considerarem a contratação desta mão de obra. Programas como o “Começar de Novo”, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), procuram reinserir o ex-detento no mercado de trabalho. “Estimular a contratação dessas pessoas é um ato correto. O empresário que o faz também mostra consciência social. É importante colaborar para que as pessoas não sejam descartadas pelo fato de terem cometido algum erro no passado”, concluiu.

Recomeço

Apesar do cenário ainda preocupante, alguns empresários já enxergam grandes oportunidades na admissão de ex-presidiários. Um dos setores que mais contratam é o da construção civil. Cerca de 300 ex-detentos foram admitidos para trabalhar nas construções de casas do programa do governo federal "Minha Casa, Minha Vida", este ano no Maranhão.
Outro exemplo vem da empresária Taciana de Freitas Kalili, dona de uma rede de loja de brigadeiros, com cinco unidades em shoppings de alto padrão em São Paulo. As embalagens que enfeitam os doces nas vitrines são confeccionadas por ex-presidiários. O trabalho é feito na cidade de Pouso Alegre, sul de Minas Gerais. "A gente faz isso na minha cidade. Lá tem uma casa originalmente de recuperação de dependentes químicos", contou.
A ideia de contratar ex-detentos partiu de sua mãe, Ana Maria Freitas, que faz a "terapia ocupacional" com artesanato aos funcionários. Cerca de 60 pessoas produzem uma média de 3 mil caixinhas para brigadeiros por mês. Os administradores do projeto oferecem o treinamento e o serviço é feito sem dificuldades, de acordo com o relato de Ana Maria.
Não há critérios rigorosos de seleção por conta da proposta da casa. Mas, como em todo trabalho, existem os que se destacam. A empresária disse que a facilidade para incluir ex-detentos no projeto só se dá porque se trata de uma cidade do interior. "Se fosse em São Paulo teríamos de saber como isso funcionaria", frisou.

O portal Começar de Novo oferece um painel de oportunidades para ex-detentos que buscam emprego e qualificação profissional por meio de cursos - informática, línguas e especialidades como corte e costura, padeiro, conserto de microcomputadores. Há 2.655 vagas disponíveis.