segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Preconceito atrapalha ressocialização de ex-detentos




Um dos grandes desafios é conseguir espaço no mercado de trabalho; baixa escolarização e medo do empresariado dificultam a inserção

Paula Costa Bonini Reportagem Local

Londrina - A dificuldade de ressocialização é um problema enfrentado por todo ex-detento. Independentemente do crime cometido, ao ter a liberdade garantida, o egresso esbarra no preconceito de uma sociedade que não está preparada para recebê-lo. Recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo revela que quem já cumpriu pena atrás das grades desperta repulsa ou ódio em 5% dos brasileiros, antipatia em 16% e indiferença em 56%. O estudo mostrou ainda que 21% das pessoas não querem encontrar ou conviver com um ex-presidiário.

Um dos grandes desafios encontrados é conseguir um espaço no mercado de trabalho. A maioria dos empresários tem receio de contratar um ex-detento. Poucos oferecem uma oportunidade. O empresário Rossine Pacheco Andrade, da Incorpast, empresa que fabrica e comercializa pastas, faz parte dessa minoria. Atualmente, ele conta com uma equipe de 20 funcionários, dos quais dois são ex-detentos.

''Acho importante oferecer uma oportunidade para evitar que eles voltem ao mundo do crime'', afirmou Andrade, que já chegou a ter cinco ex-presos trabalhando em sua empresa. ''Teve um que começou comigo e após um tempo saiu porque conseguiu um emprego melhor. Fiquei feliz. Realmente torço por eles'', falou.

Rossine garante que em nenhum momento sentiu medo de contratar um ex-presidiário e que não procura saber do passado deles. A empresa também atua em uma das unidades da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) II, o antigo Centro de Denteção e Ressocialização (CDR). ''Há presos que ajudam a confeccionar o material em oficinas desenvolvidas dentro do presídio. Tenho um instrutor que orienta esse trabalho'', explicou.

Segundo o Departamento Penitenciário do Paraná (Depen), atualmente existem 1.787 presos em Londrina, distribuídos nas duas unidades da PEL e na Casa de Custódia. Deste total, 329 trabalham. Três empresas atuam na PEL II. Nas outras instituições, os presos ajudam na lavanderia, faxina, biblioteca e outras tarefas.

Para o diretor-geral em exercício da PEL II, Luciano Pereira dos Santos, o trabalho deixa o detento mais tranquilo, o que ajuda a evitar tumultos e até rebeliões. ''Todos querem trabalhar para se sentirem úteis e para o tempo passar mais rápido. Três dias de trabalho é um a menos de pena'', salientou. Segundo ele, os presos recebem três quartos do salário mínimo por mês.

''A família do detento pode retirar até 80% do valor. O restante deve ficar na conta para o preso utilizar quando estiver em liberdade'', pontuou Santos, ressaltando que os presos são selecionados para o trabalho de acordo com o bom comportamento e o tempo de permanência.

Segundo a diretora do Patronato Penitenciário de Londrina, Cintia Helena dos Santos, a maioria dos presos consegue a liberdade antes de concluir a pena por apresentar bom comportamento. ''Eles são liberados para o regime aberto, mas até o término da pena precisam se apresentar no Patronato todos os meses. Nossa função é acompanhar a ressocialização e tentar incluí-los na sociedade''.

Conseguir um emprego, segundo Cintia, é realmente um dos maiores desafios. ''Eles ficam 'marcados'. Além do receio do empresariado, a baixa escolarização prejudica o ex-preso. Cursos de capacitação deveriam ser realizados dentro dos presídios, mas o Estado não consegue suprir essa necessidade'', considerou. ''E o empresário que contrata o antigo presidiário deveria receber benefícios fiscais'', acrescentou.

De acordo com a Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania, uma parceria com a Federação das Indústrias do Estado (Fiep) foi firmada na semana passada com o objetivo de promover cursos de capacitação para detentos. ''Serão desenvolvidas ações que visam a formação e a reinserção social da população carcerária do Paraná'', explicou a secretária Maria Tereza Uille Gomes.



'Estou reconquistando a minha vida'

Londrina - Claudiomar da Silva, de 39 anos, passou oito anos preso tráfico de drogas. Há cerca de um mês está em liberdade e trabalha como auxiliar de produção na Incorpast, firma para a qual trabalhou enquanto estava no presídio.

''Essa vaga foi uma grande oportunidade. Procurei emprego em outros lugares, mas quando sabem que sou um ex-detento arrumam uma desculpa para não me contratar. As pessoas sentem medo'', lamenta Silva, que tem esposa e dois filhos. ''Estou reconquistando a minha família e a minha vida aos poucos'', diz.

A situação de Ricardo Wagner Ferreira do Vale, 28, é semelhante. Após cumprir pena em regime fechado por sete anos, ele conquistou a liberdade há um mês e também conseguiu emprego na empresa de fabricação de pastas. ''Agradeço muito por ter conseguido um emprego, pois sei o quanto é difícil. Tive muita sorte. Agora só quero saber de trabalhar e cuidar da minha família'', finalizou Vale, que tem dois filhos.(P.C.B.)

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