Marcelo Tonin Dias, 36 anos, prefere não falar sobre o crime que
cometeu. Quer esquecer do passado. Em 2011, foi preso e ficou sete dias
no Presídio Regional de Blumenau. Por decisão judicial, foi solto para
cumprir a pena em medida alternativa. Quase diariamente, Dias prestou
serviços gerais em uma escola. Logo no primeiro dia, foi recebido pelo
diretor, que nunca lhe perguntou que crime havia cometido. Mesmo não
gostando da atividade, cumpriu-a do início ao fim. Agora, ainda
recebendo acompanhamento da Central de Penas, lembra da importância da
medida para a mudança de vida:
– Trabalho com caminhão e viajo
bastante. Minha mãe hoje consegue dormir tranquila sem pensar que estou
fazendo coisa errada. Eu mudei, toda pessoa pode mudar. Tinha dia que
não trabalhava na escola, mas ficava quatro horas conversando com o
diretor, ganhando conselhos – contou.
Acompanhamento psicológico é fundamental, diz especialista
O
acompanhamento recebido por Dias é fundamental para evitar a
reincidência, segundo o psicólogo Antonio Gomes da Rosa. Para ele, a
pessoa condenada precisa saber o significado do momento em que está
vivendo. Para ele, a pena é um meio transitório, que se ficar apenas no
ato da medida, não haverá reflexão:
– Ninguém vai a lugar algum
sem antes passar por si mesmo. A pessoa tem que ter a possibilidade de
fazer uma análise do papel dele na sociedade – refletiu o especialista.
SEGUNDO O RELATO DE ALGUNS PARENTES DE INTERNOS, HÁ UMA EPIDEMIA DE FURÚNCULOS SE ALASTRANDO ENTRE MUITOS INTERNOS; É DE CONHECIMENTO QUE A ENFERMARIA NÃO CONTA COM MEDICAMENTOS APROPRIADOS PARA OS CASOS.
ISSO CERTAMENTE É MAIS UMA DEMONSTRAÇÃO DO DESINTERESSE DAS AUTORIDADES EM DAR DIGNIDADE A QUEM JÁ CUMPRE SUA PENA E DESEJA TRATAMENTO SEGUNDO A LEI DOS DIREITOS HUMANOS.
Pacientes que cumpriram penas há 20 anos são esquecidos em antigo manicômio
Setenta ex-pacientes do hospital para transtornos mentais Heitor Carrilho esperam a chance de liberdade
Christina Nascimento
Rio - Atrás dos portões do antigo manicômio
judiciário Heitor Carrilho, 70 ex-pacientes aguardam a chance de voltar à
sociedade. Todos já ganharam liberdade judicial — alguns há 20 anos —,
mas foram esquecidos pelas famílias e negligenciados pelo poder público.
São homens e mulheres, a maioria com mais de 40 anos e com histórias
que revelam a face mais dura na vida de um portador de sofrimento
mental: o abandono. Estão lá ex-internos que cometeram homicídios e
roubos, mas que, após tratamento, foram liberados porque tiveram
considerada ‘cessada a sua periculosidade’.
A Secretaria de Administração Penitenciária
(Seap) é uma “tutora” à revelia dos ex-internos, que sem ter para onde
ir, vivem na condição de abrigados. Cada um custa, no mínimo, R$ 2,5 mil
por mês ao sistema. Uma conta que ultrapassa R$ 2 milhões por ano. Isso
sem falar na equipe disponibilizada para fazer o atendimento. Enquanto
no sistema carcerário há um psicólogo para 500 detentos, no Heitor
Castilho são quatro para atender os 70.
A Lei Antimanicomial de 2001
determina que, na ausência da família, o portador de doença mental que
cometeu crime e está apto para o retorno more em residências
terapêuticas — casas mantidas pelas prefeituras onde há apoio
psicossocial. Mas os municípios não cumprem a determinação.
José Maurício, 44 anos, foi ‘condenado’ após roubar uma bolsa, e sua ‘pena’ acabou em maio de 2012
Foto: Fernando Souza / Agência O Dia
“Não tenho como exigir dos prefeitos
que os recebam. Os ex-internos não são de nossa responsabilidade. A
nossa preocupação maior é que eles não estão num ambiente ideal”, disse o
coronel Cesar Rubem, secretário da Seap.
Pente-fino revelou internos que já poderiam ter saído
Os pacientes não têm uma “pena” em anos exata
pré-determinada. São avaliados a cada seis meses para saber se estão
aptos à liberação. Mas como não tem quem cobre sua saída, acabam
esquecidos no sistema carcerário. Isso explica o fato de alguns passarem
30 anos reclusos no manicômio, e só terem tido a desinternação
autorizada há dois, três anos. Com a ajuda do Ministério Público, os
profissionais da Heitor Carrilho fizeram pente-fino na perícia
psiquiátrica. O maior drama foi constatar que muitos já poderiam ter se
ressocializado há alguns anos.
Sem contato com os parentes, Eliane Silvino,
52, acabou abandonada e passa os dias zanzando pelos corredores da
unidade. Seu crime foi jogar o filho da janela da maternidade. Absolvida
da pena, como acontece para pessoas com transtorno mental, cumpriu
medida de segurança através de internação. Sua liberdade veio em 2009,
após 24 anos ‘invisível’ ao sistema.
“Só queria uma visita”, lamenta. Curiosamente,
apesar dos momentos de delírios, quase todos os ex-pacientes sabem
exatamente o tempo que estão internados. José Maurício de Barcellos
Filho, 44, foi “condenado’ após roubar uma bolsa, há cinco anos. Deveria
ter saído em maio de 2012. “Meus irmãos me esqueceram, mas acho que um
dia vão se lembrar de mim”.
Seu Carlinhos: roubou uma bicicleta e está enclausurado há mais de duas décadas no antigo manicômio
Foto: Fernando Souza / Agência O Dia
Anos de solidão após roubo de bicicleta
Foi por causa de uma bicicleta
roubada nos idos da década de 90 que Seu Carlinhos, nascido Carlos de
Almeida Freitas, 66 anos, foi internado para tratamento psiquiátrico. Já
são 21 anos numa rotina de solidão, em que as recordações do passado se
misturam a uma expectativa de ilusão. “Tenho quatro irmãs e vou
encontrá-las quando sair daqui”, planeja ele, que há 15 anos já poderia
estar de volta à sociedade, após ter sido submetido a uma perícia
psiquiátrica.
Com olhar calmo e fala pausada, Benedito Borges
de Mello, 68 anos, se prepara para uma realidade que considera ainda
mais díficil do que a reclusão: a liberdade. Dos 70 ex-internos, ele é o
que está com o processo mais adiantado para ficar numa moradia
assistida. Se tudo der certo, esta semana ele se muda para Jacarepaguá.
Desde que pisou pela primeira vez na unidade, já se passaram 23 anos.
“Não tenho ninguém me esperando lá fora. A única coisa que quero é ser
livre.” ‘Aquilo virou um depósito de gente’, define Darlan
Impressionado com a situação dos 70 internos, o
desembargador Siro Darlan enviou ofícios para 18 prefeituras e órgãos
de Direitos Humanos, inclusive Alerj, cobrando responsabilidades.
“Aquilo virou um depósito de gente. Isso é
resultado de falta de políticas públicas e de respeito à dignidade
humana. Todos foram avisados. Não podem dizer que não são coniventes com
esse crime, porque manter uma pessoa privada da liberdade, sem
motivação, é crime”, afirmou o magistrado. Darlan também comunicou o
caso ao Tribunal de Contas do Estado. “Há um desvio de finalidade. O
dinheiro do orçamento destinado para estes internos é para cumprir pena.
O Tribunal tem que ter conhecimento disso para tomar medidas.”
Médicos, enfermeiros, assistentes sociais e
agentes penitenciários estiveram empenhados durante quase dois meses em
abafar o caso
31/07/2013
Um preso que estava "íntegro e capaz fisicamente" ficou cego e
tetraplégico após ser torturado em Rio Branco (AC), dentro do presídio
federal Antonio Amaro Alves, de segurança máxima. Seis agentes
penitenciários são acusados de golpeá-lo com uma marreta de borracha,
usada normalmente por lanterneiros e borracheiros.
Faz 56 dias que Wesley Ferreira da Silva, de 27 anos, encontra-se
prostrado no leito 72 do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco
(Huerb). Cego e com lesões no cérebro e na coluna, ele contou que os
agentes penitenciários, além da marreta de borracha, usaram spray de
pimenta e aplicaram chutes e socos nele e outros dois presos.
Médicos,
enfermeiros, assistentes sociais e agentes penitenciários estiveram
empenhados durante quase dois meses em abafar o caso. A versão oficial é
de que caiu no banheiro, bateu a cabeça e sofreu lesões na coluna. Uma
enfermeira e uma assistente social alegaram que compete somente aos
familiares denunciar às autoridades casos de pacientes suspeitos de
crime.
Após uma avaliação médica, o preso foi recusado em um
hospital psiquiátrico para onde chegou a ser enviado para internação.
Antes disso, durante inspeção de rotina do Ministério Publico no
presídio, agentes penitenciários o mantiveram escondido para evitar que
revelasse a tortura a promotores de justiça.
A situação de Wesley
Ferreira da Silva, que consegue apenas movimentar a cabeça e fala com
muita dificuldade, foi comunicada pela reportagem à juíza da Vara de
Execuções Penais, Luana Campos, bem como à procuradora de justiça
Patrícia Amorim Rego, chefe do Ministério Público do Estado do Acre. Um
homem que acompanhava um parente internado na mesma enfermaria do preso,
ouviu dele o relato de tortura e espancamento e revelou o caso ao Blog da Amazônia.
A
juíza Luana Campos, que está de férias, aceitou acompanhar a reportagem
ao Pronto Socorro, na manhã de terça-feira (30). Chocada com o relato
do preso, a juíza telefonou para o delegado da Polícia Civil, Fabrizio
Leonard, titular da Delegacia Itinerante, a quem pediu que fosse ao
hospital ouvir o depoimento e instaurar inquérito para apurar a denúncia
de tortura.
O delegado alegou que estava em reunião, mas
prometeu que ia ouvir Wesley Silva a partir das 14 horas. Até às 17h30 o
delegado não havia procurado o preso, de acordo com informação da
promotora de Justiça Laura Miranda Braz, da 4ª Promotoria Criminal, que
também ouviu a vítima e passou a atuar no caso a pedido da procuradora
geral de Justiça do Acre.
Wesley Ferreira da Silva, que nasceu em
Colorado do Oeste (RO), cumpre oito condenações que totalizam 21 anos,
10 meses e 12 dias de prisão, por um homicídio, seis furtos e um roubo.
Ele foi transferido de Porto Velho (RO) para Rio Branco no início do
ano, passou mais ou menos 20 dias na triagem do presídio estadual
Francisco de Oliveira Conde e em seguida foi conduzido ao presídio
Antônio Amaro Alves.
O preso contou que foi torturado porque era
suspeito de integrar a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da
Capital) e de ameaçar de morte um agente penitenciário do Acre.
"Durante
a terceira sessão de tortura, implorei ao Souza, chefe da equipe de
segurança do presídio, que mandasse buscar minha ficha. Ele atendeu e
constatou que eu estava há poucos dias dias em Rio Branco. Eu não
conhecia ninguém no Acre. O Souza disse: 'Tudo bem, ninguém fez nada com
você, entendeu?'. E eu entendi que era pra não contar nada sobre a
tortura. Depois falei com o diretor do presídio e vi ele dizendo pro
pessoal dele: 'Se eu soubesse que esse preso estava nessa situação eu
não tinha recebido. Quem recebeu esse preso?'. O diretor não tomou
conhecimento da tortura. Não soube de nada porque eu tive medo de
contar. O diretor do Instituto Penitenciário também não ficou sabendo.
Quem mais me bateu foi um agente alto, forte, careca", relatou.
Após
acompanhar a reportagem ao Pronto Socorro, a juíza Luana Campos foi
direto ao juiz Elcio Sabo Mendes Júnior, que está respondendo pela Vara
de Execuções Penais até a próxima segunda-feira (5), para informá-lo
sobre as condições do preso. Na noite de terça Elcio Sabo Mendes Júnior
decidiu por requisitar que a direção do presídio remeta a pasta
carcerária de Wesley no prazo de 24 horas.
O magistrado também
deferiu um pedido de prisão domiciliar, solicitado pela do preso, por
considerar que "a situação de saúde do reeducando é extremamente
grave". A prisão domiciliar já havia sido recomendada pelo Iapen e o
Ministério Público.
Para melhor instrução dos autos e para
esclarecer a situação do preso, o juiz determinou que a direção do
hospital forneça, dentro de 48 horas, o prontuário e demais documentos
anexados à pasta carcerária, bem como um diagnóstico clínico do apenado.
Elcio
Sabo Mendes Júnior requisitou ainda a instauração de inquérito policial
para investigar os fatos que levaram ao atual estado de saúde da
vítima.
Wesley Silva, que cumpria pena no
presídio Urso Branco, de Porto Velho (RO), foi transferido para Rio
Branco, mas o processo dele contém falhas. A transferência foi deferida
em julho de 2012, o expediente confirmando a transferência em novembro
de 2012, mas não havendo mais notícias acerca do aporte da sua execução
penal na Justiça do Acre.
"Eu
sei que eu errei e estou pagando pelo meu crime. Eu falo pra minha mãe
que estou pagando muito caro, muito caro. Se hoje - e não é porque estou
nesta situação - se eu pudesse voltar atrás eu não faria o que eu fiz
na minha vida porque só eu sei o que eu passo, deitado nessa cama
quente, sem poder me mexer, sem poder enxergar quem está próximo de
mim", disse aos prantos.
Em
maio, possivelmente após as sessões de tortura e as evidências de que o
preso é ligado ao PCC, surgiu nos autos um relatório social cujo teor
recomendava uma nova transferência de Wesley Silva de volta a Rondônia,
de modo que pudesse ser assistido pela mãe dele, Maria Sueli Ferreira da
Silvas, de 54 anos, pois não tem familiares no Acre.
De
acordo com o último relatório social, Wesley Silva apresentava, desde a
época que se encontrava recluso em Rondônia, uma saúde comprometida. De
acordo com o documento, ele havia sido espancado por outros detentos e
passou dois meses internado em hospital. Ao receber alta, descobriu as
seqüelas deixadas pelo espancamento, sendo que perdeu o baço e ficou com
pressão arterial descontrolada.
Na
decisão, o magistrado assinala que Wesley Silva se "mostrava íntegro e
capaz fisicamente, o que não se faz mais presente". Laudo assinado pelo
médico Josleilson dos Santos Nascimento informa que o preso "encontra-se
em um quadro de paralisia flácida, amaurose e restrito ao leito por
incapacidade de deambulação." Ele foi avaliado por neurologistas do Acre
e de Rondônia, mas os médicos não diagnosticaram a causa da paralisia
dos braços e das pernas.
Wesley Silva ainda tem esperança e estava preocupado porque a mãe dele trabalha e terá que retornar para Rondônia.
"Eu
quero primeiramente a minha saúde, porque eu vim pra cá andando,
enxergando e falando normal. Hoje estou numa situação que minha mãe que
me dá banho, que me dá comida e eu só fico deitado. A minha mãe
trabalha. Ela tá indo embora. Tem agente penitenciário que vem cuidar de
mim, que deixa as pessoas me ajudar. Tem uns que não deixa ninguém se
aproximar de mim. Depois que minha mãe for embora, quem vai me dá
comida? Quem vai limpar minha bunda? Quem vai me ajudar?"Procurada
pela reportagem, a secretária adjunta de Comunicação do governo do
Acre, Andréa Zílio, sugeriu uma entrevista com o diretor presidente do
Instituto de Administração Penitenciária do Acre (Iapen), Dirceu Augusto
Silva, que preferiu não se pronunciar a respeito da denúncia.
O
presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Acre, Adriano
Marques, também foi procurado pela reportagem. Em nota, ele defendeu os
colegas da acusação de tortura, espancamentos e maus tratos no sistema
penitenciário do Acre.
"Os
agentes apresentaram cópias de documentos que comprovaram que nenhum
responde por processos administrativos ou judiciais e que a direção do
Iapen informou que o preso já chegou ao Acre com problemas de saúde. Não
podemos extrapolar princípios constitucionais. Os agentes penitencários
gozam da presunção da inocência."
SÓ PODE SER BRINCADEIRA DAS AUTORIDADES DAQUELE ESTADO.
Que possamos, com economia, propiciar melhores condições de vida para a população carcerária
LUIZ FLÁVIO BORGES D'URSO*
Trata-se de tema que desperta grande polêmica e merece ser objeto de
uma reflexão realista. A chamada privatização de presídios aparece no
mundo por volta da década de 1990. Desde logo surgem duas formas de
privatização de presídios, uma delas inspirada no modelo americano, com a
entrega total do preso à iniciativa privada, o que para nossa
legislação mostra-se inconstitucional. Outra forma foi inspirada no
modelo francês, no qual ocorre a cogestão, numa verdadeira
terceirização, preservando-se a função jurisdicional nas mãos do Estado e
transferindo a função material do cumprimento da pena (comida, roupas,
saúde etc.) ao ente privado. A construção da unidade prisional também
teve a participação da iniciativa privada e agora se adapta ao modelo
das PPPs.
O problema prisional brasileiro é latente e, diante de tantas
dificuldades e mazelas que esse sistema patrocina para as criaturas a
ele remetidas, a experiência estrangeira bem sucedida foi paulatinamente
sendo adaptada à nossa realidade. O custo do preso em unidades
terceirizadas é inferior ao seu custo no aparelho público, além do que
nas unidades privadas o preso trabalha, é remunerado pelo seu trabalho e
os índices de recuperação são bem maiores que nas unidades prisionais
tradicionais.
Toda a sociedade brasileira está sentada num barril de pólvora que
vive a emitir sinais claros de que pode explodir a qualquer tempo com
resultados terríveis. No Brasil, em parcela ainda reduzida, há algumas
poucas experiências trazendo ganhos sociais e mais eficiência para o
sistema. Esses ganhos não são imediatos, porém expressivos ao longo dos
anos.
Nossa história de privatização prisional tem por volta de uma década
de existência, com resultados animadores, balizando que pode ser esse um
caminho a ser trilhado mais sistematicamente. Hoje, nos três estados –
Minas Gerais, Bahia e Ceará – em que o governo chamou a iniciativa
privada para ajudar a administrar parte dos seus presos, tanto de baixa
como de alta periculosidade, parte dos problemas foi mitigada.
Essas experiências precisam ser ampliadas, para se avaliar o que deu
certo e o que não funcionou, e implantar uma política de gestão
terceirizada de unidades prisionais. Considerando que a prisão é uma
necessidade, que, possamos com economia, propiciar melhores condições de
vida para a população carcerária, objetivando a recuperação do homem
preso.
* Criminalista, conselheiro federal, mestre e doutor em Direito Penal pela USP, foi presidente da OAB/SP por três mandatos
Se o Estado segrega e condena, tem que se responsabilizar por gestão, direitos e deveres do preso
MAÍRA FERNANDES*
Uma população carcerária de 550 mil e um cenário de caos tornam
sedutoras as propostas de privatização: falaciosas promessas de solução a
curto prazo para questões que mereceriam sérias políticas criminais e
penitenciárias.
Desavisados depositam esperanças em iniciativas como a do Complexo
Prisional Público-Privado, pelo qual o Governo de Minas Gerais firmou
contrato de 27 anos com um consórcio que cobra, por preso, mensalmente,
mais do que gastava o Estado. O alto custo social e financeiro do
encarceramento continuará suportado pela Viúva, que repassará as verbas
ao setor privado.
Quanto mais severas as leis, maior o número de presos – condenados ou
provisórios, culpados ou inocentes – e o tempo deles atrás das grades,
mais lucrativo será o negócio. Não tardarão lobbies junto aos órgãos de
segurança, no Congresso ou nos tribunais, pleiteando mais flagrantes,
aumento de penas e condenações. Na lógica do lucro, cela vazia é
prejuízo, tal como qualquer hotel: quarto vazio, prejuízo irrecuperável.
Como dizia Alessandro Baratta, “cria-se a vaga, cria-se o preso”. Um
incentivo à prisão!
Como em qualquer empresa, penitenciárias cedidas ao setor privado
mundo afora também cortam pessoal, salários, diminuem a
quantidade/qualidade dos serviços. Quem garante que o administrador
privado, diante de irregularidades, denunciará seus subordinados? A
possibilidade da corrupção se alastrar é concreta.
Se o Estado segrega e condena, é dele a responsabilidade pela gestão,
pelos direitos e deveres do preso. A situação atual impõe a valorização
de servidores das áreas de saúde, educação, psicologia e assistência
social nas prisões; parcerias entre as secretarias de Estado; mais
escolas e postos de trabalho no sistema (estes sim, com apoio privado) e
fortalecimento das defensorias públicas.
Entregar a quarta maior população carcerária do mundo à iniciativa
privada é expiar as culpas dos problemas causados pelos poderes da
República. Prende-se demais, e provisoriamente (40% dos presos não
possuem condenação definitiva); mutirões indicam excesso de pena ou
demora nos benefícios; avolumam-se leis com alto poder punitivo; as
varas de Execução Penal são desprestigiadas pelos tribunais; faltam
medidas de apoio aos egressos. Nada que a privatização possa resolver.
Um tiro dado na água.
* Presidente do Conselho Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro